Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010

ALTERAÇÃO DAS LEIS LABORAIS

PEÇA DE TEATRO NUM ACTO E 5 CENAS, COM EPÍLOGO FELIZ PARA OS “MERCADOS”

(Em cena num País à beira mar plantado, com intervenientes com pouca experiência teatral, mas muita, mesmo muita, demagogia).

 

PRIMEIRA CENA: (Entra pela esquerda baixa, com ar de zangado, para tentar desde logo impressionar o público, o líder parlamentar do PS, Francisco Assis, que declara em tom dramático)

 

- Estou sempre disponível para dar a cara pelo Governo, lembremo-nos de Felgueiras,  pelo que rejeito em absoluto qualquer alteração ao Código Laboral nesta legislatura, pois  nem tudo o que é proposto pelo FMI ou pela União Europeia dever ser aceite por Portugal.

(Leva-se demasiado a sério este rapaz).

 

SEGUNDA CENA: (Intervém de imediato o Presidente do Ecofin, Didier Reynders, representante do dono do Teatro,  que em voz off, relembra que quem manda no Teatro são os seus patrões, pois são eles que estão a pagar as letras dos empréstimos a que foi necessário recorrer para pagar os salários aos artistas)

 

- O Governo português vai avançar com reformas estruturais significativas nos sectores da Saúde, dos Transportes e nas Leis Laborais , e destaco a importância dessas reformas em Portugal,  cuja execução será acompanhada por novas autoridades no seio desse processo português.

 

(Pairou entre a assistência a duvida sobre as “novas autoridades. Será o FMI? Interrogavam-se)

 

(Entretanto na assistência alguém descobre o Ministro das Finanças de Portugal, que finge não ouvir esta cena, enquanto brinca com o seu iPod Touch de estimação)

 

(Através de vídeo-conferência, o comissário Olli Rehn acrescenta, para os artistas que ainda possam estar desafinados:

 

- Saudo as medidas anti-défice em curso em Portugal, e também as importantes reformas no mercado de trabalho.

 

Detalhe: Os portugueses ainda não sabem quais são as importantes reformas no mercado de trabalho, mas ele sabe.

 

TERCEIRA CENA: (Atravessa o palco uma personagem misteriosa, de olhar vago posto no infinito, cofiando a sua  barbicha)

 

- Estou confiante quanto à eficácia das medidas do Governo para controlar o défice e combater a crise, que aliás estão contempladas no Orçamento para 2011.

 

(Entre a assistência alguém ousa arriscar que se trata do Ministro da Economia. Qual economia? Ninguém soube responder)

 

QUARTA CENA: (No fundo do palco, muito ao fundo, aparece projectada uma sombra chinesa, que mais tarde se veio a descobrir, tratar-se da Ministra do Trabalho, que em voz monocórdica, diz estar ali para clarificar a situação)

 

- O Código do Trabalho é um instrumento potenciador das flexibilidades e adaptabilidades necessárias para melhorar o nosso mercado de trabalho, e em conjunto com os parceiros sociais o Governo vai partir de um  instrumento que já existe (Código do Trabalho) para olhar as potencialidades que este oferece para melhorar o funcionamento do mercado de trabalho, o qual funciona através da acção das empresas, empresários, trabalhadores e seus representantes tendo o Governo como sua função criar condições para que isso aconteça.

 

(E saiu de cena sem ninguém ter dado por isso, nem ter percebido o que a senhora queria dizer).

 

QUINTA CENA: (Num ecrã gigante vê-se o Primeiro Ministro numa das suas corridas, algures pelo mundo. Desta vez é na Argentina. A anterior tinha sido em Timor, quando foi lá pedir uns trocados emprestados)

 

(No tom de voz de vendedor de carros usados, que habitualmente utiliza, afirma:)

 

- Foi descoberto pelo meu Governo o caminho marítimo para a Índia. Não, não, desculpem: encontramos a solução para o desemprego em Portugal. Aqui vai: Os contratos de trabalho individuais, de empresa e sectoriais devem passar a incluir um ponto no qual se estabeleça, de forma clara, que o salário do trabalhador depende directamente da sua produtividade ou da qualidade do seu trabalho. Portanto, como podem verificar, com esta medida vão ser finalmente criados os 150.000 postos de trabalhos que prometi.

 

(Enquanto o nariz do senhor Primeiro Ministro sem qualquer explicação plausível começa a crescer, a crescer, a crescer (ainda mais), entra em cena uma jornalista (não era a Manuela Moura Guedes) de microfone em punho, que pergunta:)

 

- Admite  mexer nas actuais regras laborais?

 

- Estamos a finalizar uma agenda para o crescimento com os  vários parceiros sociais e portanto, a resposta é sim. Esperem pelos próximos dias para saberem mais pormenores.

 

(Entretanto, ao longe, uma senhora consultora próxima do Governo, mais uma, afirma):

 

- Esta é a única via para promover o aumento da produtividade e o crescimento da economia, promovendo as remunerações de quem produz melhor. A questão aqui não é trabalhar mais horas, é trabalhar melhor, com mais qualidade e sermos mais competitivos.

 

(Em fundo vêm-se os “mercados” a sorrir, sendo audível um sussurro):

 

- Espertos estes portugueses, sabem fazer o que lhes mandam. Já podemos pôr aquela "malandragem" na ordem.

 

                          FIM. (O FMI vem a seguir).

 

PS. Ninguém aplaudiu, mas viam-se lágrimas nos olhos de espectadores cabisbaixos.

 

Post: 172

Estado de Alma: Com a lágrima ao canto do olho
Livro: O Principe
publicado por Lanzas às 17:00

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