Domingo, 11 de Setembro de 2011

11 DE SETEMBRO, DEZ ANOS DEPOIS

    Há dez anos tinha acabado de chegar ao trabalho, vindo directamente do Aeroporto, quando um familiar me alertou via telefone:  - "Estás a ver televisão"?

   - Não, respondi. - "Então vai ver e depois falamos".

   Desci a três os degraus do 2º. andar, sem elevador, até ao café instalado no rés do chão, e fiquei estupefacto com o olhar preso naquilo que via no ecrã. Como era possível? Estaria a civilização que eu conhecia a desmoronar-se como aquelas torres? A minha cabeça tentava processar o que estava a acontecer e procurava conciliar com aquilo que eu vivera nos últimos dez dias em Israel, para onde havia viajado com o desejo de me identificar com a realidade local, o confronto de civilizações e visitar sítios “que me falavam” e que por isso mesmo  gostaria de conhecer.

   Foi uma viagem agradável. Visitei aquilo que um turista normal numa viagem em grupo (pequeno) pode fazer. O facto de entre os companheiros de viagem se encontrarem dois Missionários Combonianos ajudou a compreender algumas realidades.

   Não senti o peso do conflito local e fiz algumas, pequenas, incursões a "território menos seguro" que me ajudaram a obter uma panorâmica mais global.

   Não visitei Jericó, cuja entrada estava vedada a “estrangeiros”, mas consegui ir a Belém depois de negociações entre autoridades fronteiriças, que fizeram com que o autocarro com ar condicionado em que nos deslocávamos e o nosso guia, um brasileiro naturalizado israelita que havia servido no exército de Israel, ficassem na fronteira, enquanto nós tomávamos lugar num autocarro palestiniano a precisar de uma revisão urgente, com um improvisado guia espanhol, que fugiu de mim a sete pés quando lhe quis fazer algumas perguntas sobre o que estava a acontecer por ali.

   Durante a estadia fiquei num Kibutz com as colinas dos Montes Golã por fundo. Banhei-me no Rio Jordão, no Mar Vermelho e no Mar Morto. Estive no deserto e, não escondo que me emocionei quando visitei o avião que no dia 4 de Julho de 1976 participou na operação de resgate de 248 reféns no Aeroporto de  Entebbe no Uganda.

   Visitei os Museu do Holcausto e do Livro.

   Percorri o que foi possível de Jerusalém. Deixei um bilhete no Muro das Lamentações com votos de paz para todas as populações que ali se cruzam, e só não visitei a Mesquita de al-Aksa (a da cúpula dourada), porque na altura estavam interditas as visitas a não muçulmanos.

    Vi o sentido de responsabilidade de um povo mas também a forma descontraída como vive e convive com outras religiões, desejando a paz mas sem medo da guerra.

    Depois de um homem bomba ter sido abatido antes de se conseguir fazer detonar numa paragem de autocarro, vi na televisão o seu pai chorar, não pelo seu filho morto, mas por a este não lhe ter sido permitido cumprir a sua missão.

   Como corolário da viagem ficou-me a imagem de quem “validou” a minha bagagem no Aeroporto de Telavive no regresso a Lisboa. Pediu que abrisse a mala e que verificasse se na mesma se encontrava algo que não fosse meu. Perguntou se tinha feito algumas compras e perante a resposta afirmativa perguntou se tinha assistido ao embrulho das mesmas. Satisfeito com as minhas respostas acrescentou: - "Quer ver novamente se está tudo bem na sua mala? Olhe que não sou eu que vai no avião, é o senhor".

   Recordo agora de na altura, perante o horror do que estava acontecer, reviver todos estes factos perante a constatação que a dita mais forte Nação do Mundo com biliões de dólares investidos em forças de elite de todo o tipo, em armas de defesa e destruição ultra sofisticadas, em aviões visíveis  e invisíveis; em satélites que vigiam permanentemente a terra e o universo  com capacidade de intercepção de dados e informações permanente tivesse permitido que simultaneamente em quatro aviões descolados dentro seu próprio território, um restrito grupo de pessoas ainda que dispostas a morrer pela sua causa, para a grande maioria de nós ocidentais sem qualquer justificação, mostrassem ao mundo que o gigante afinal tinha pés de barro. Como era isso possivel? Ou havia algo mais que o comum dos mortais desconhecia ?

   Dez anos passados, morto Bin Laden, alguns responsáveis e dezenas de milhar de inocentes, gastos largos biliões de dólares pelo caminho, nada se alterou e continuamos a viver na expectativa e no medo de acontecimentos que não dominamos.

   Teria sido possível neste espaço de tempo, aproveitar melhor os erros cometidos? Creio bem que sim.

   Poderiam ter sido evitado tantas mortes injustificadas e aproveitado melhor tanto dinheiro gasto em destruições maciças que não se sabe a quem aproveita, enquanto milhares de pessoas morrem diariamente de fome e sede, por esse mundo fora em condições infro humanas? Claro que sim.

   Ainda vamos a tempo? Espero bem que sim.

 

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Estado de Alma: Frustrado
Livro: Hegemonia ou Sobrevivência
publicado por Lanzas às 10:57

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